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Mostrando postagens de 2017

O "Caos" nosso de cada dia

Definitivamente “Caos” não é um espetáculo para "amadores": é para quem já transcendeu a barreira da puerilidade, para quem tem disposição e coragem – no sentido existencial da palavra - para perceber e se confrontar com as neuroses e absurdos do mundo em que vivemos.
A persistente, indócil e consistente “Cia In Pares” traz com esse espetáculo uma proposta inquietante, instigante, incomodante e visceral em todos os aspectos. Em sua presentificação radical a corporeidade provoca um encontro radical que desvela, muitas vezes, as faces degradadas da nossa própria existência: a vida condicionada, comprimida, intoxicada e escravizada por um sistema indiferente às condições de vida humana e seu espaço vivente. Dentro de um contexto cultural como o nosso hegemonicamente racionalista e, em face do momento político que atravessamos (reacionário e sectariamente moralista) as narrativas simbólicas do corpo – com exceção das com apelo à sexualidade gratuita - ainda são muito pouco d…

Fúria e Combate em Nelson Rodrigues: uma leitura Nietzschiana

Vestido de Noiva teve o tipo de sucesso que cretiniza um autor. Parti para Álbum de família, que é um anti-Vestido de Noiva. O teatro é mesmo dilacerante, um abscesso. Teatro não tem que ser bombom com licor.”

(Nelson Rodrigues, em Teatro Completo, p. 22 – Org. S. Magaldi) “Atacar faz parte dos meus instintos. Poder ser inimigo, ser inimigo – isso talvez pressuponha uma natureza forte. Ela precisa de resistência, por isso ela busca resistência: o páthos agressivo faz parte, necessariamente, da força, assim como os sentimentos da vingança e da revanche fazem parte da fraqueza.”
(Nietzsche, em Ecce Homo)


Ao debruçarmos sobre a obra de Nelson Rodrigues – ou sobre qualquer outra obra - temos evidentemente um solo próprio que nos perpassa. Somos brasileiros, logo somos, de alguma forma, “cristãos”, pois, é esse o solo-imaginário que domina nossa cultura; mesmo quando se posiciona como “ateu” a luta de negação se dá contra o hegemônico simbolismo do Cristianismo. Somos também, da mesma forma, …

Bacalhoada ou Miojo?

Vivemos tempos turvos onde a desinformação, o fanatismo, o desrespeito e a estupidez proliferam. Uma das coisas mais bizarras que assistimos nesses tempos são os ataques à figura do educador Paulo Freire. Freire, como está amplamente divulgado, possui fundamentais obras, ações e reconhecimento público, não apenas no Brasil, mais em todo mundo; tendo sido inclusive, entre muitas honrarias, incluído na capital da Suécia, Estocolmo, em uma escultura que homenageia os sete pensadores que foram considerados os mais importantes nas décadas de 60/70. Mas isso não impede - aqui no Brasil - o descalabro e a insensatez nesses nossos famigerados dias de fanatismo e estupidez ideológica em relação à figura de Freire. Um amigo meu professor relatou que, acabando de chegar a uma escola nova, foi imperativamente interpelado - à queima-roupa, diga-se de passagem - por um outro "educador":
- Paulo Freire ou Olavo de Carvalho?
Isso seria o mesmo (do ponto de vista epistemológico, fenomenológic…

Ensaio sobre a pasteurização dos afetos

Chegamos ao tempo dos afetos pasteurizados. Acasos sonsos, omissos casos, descasos parcos, transações tristes, afagos fáceis, favoráveis, indiferentes, liquidados a perder de vista.

Qualquer gesto será desmitificado, desqualificado, massificado enquanto tal; sem qualquer conotação verbal, apenas imediato contato casual.
É mesmo necessário evitar-se a fala, nenhum sentido expresso, nenhum excesso de sentimento, nenhum impresso pertencimento. Falemos pouco, (ou quase nada mesmo) sejamos lacônicos, patéticos, distraídos, risonhos, fofos, risíveis...
É mesmo necessário, (praticamente um imperativo ético) pasteurizar o riso, articulá-lo em seu vazio pleno, mumificá-lo em sua dimensão tetânica. Não há motivos para buscarmos profundidade em nossos encontros; já estamos vastos de nós mesmos, autossuficientes, autossustentáveis, autodeterminados, autocontrolados.
Temos um império insípido e hipertrofiado dentro das nossas pequenas cabeças: por que haveríamos de perder tempo em perceber o outro?
Usa…

Conheça o ES de Hartung: paraíso do caos e da Isenção Fiscal

Apesar da alcunha que lhe é dada de “Imperador” - por sua arrogância, impiedade e soberba - o governador Paulo Hartung não vai além de um serviçal de luxo. Ele faz parte do braço político (no sentido degradante da palavra) de um grupo, muito bem pensado e articulado, para fazer do Espírito Santo sua maior fonte, em detrimento aos reais interesses e necessidades da maioria da população capixaba. A origem do caos que vivemos nesse momento, do visível sucateamento dos serviços públicos, que explodiu e veio à tona com o movimento de paralisação dos policiais militares, tem como origem essa lógica de poder da qual Hartung atua como uma espécie de “leão de chácara”.
O Espírito Santo deveria ser - por simples lógica geopolítica - uma “Suíça” encrustada em território brasileiro. Com uma extensão geográfica similar ao Rio de Janeiro (cerca de 46 mil km2 ), mas com população quatro vezes menor (cerca de 3,8 milhões de habitantes) e com recursos econômicos suficientes para dar dignidade de vida p…

Por que estamos todos doentes no ES?

Temos, por hábito, analisar as coisas por seus efeitos imediatos, esquecendo do processo que gerou o fato que nos afeta. Também pela mesma velha força do hábito (como diria Hume), apontamos a causa que vemos mais próxima como a fonte de origem do mal que sofremos. É mais ou menos isso, de modo geral, que acontece agora aqui no Espírito Santo quando acoados, amedrontados e ilhados – literalmente - apontamos simplesmente a “PM” como causa do horror social que estamos vivendo; que pela “ausência” dela em nosso cotidiano estamos fadados ao desamparo e à barbárie. Isso seria o mesmo que dizer que o remédio é a causa da doença.
Como a “VIOLÊNCIA” - do ponto de vista de uma coletividade - é uma “doença social” é a partir disso que temos que tentar aprofundar nossa reflexão, para não continuarmos na superfície das coisas, respondendo aos impulsos imediatos que nos afastam desse entendimento. Como “doença social” a “VIOLÊNCIA” tem sua origem na desigualdade social, na exclusão, na corrupção, …

Sobre a opacidade de dormir ao lado

No dormir do lado - mesmo que se acredite nascidos um para o outro - há muito o que se pensar; principalmente quando - antes de se refletir - não se consegue sentir, perceber,  notar, compartilhar o lado do outro.
O lado de fora pode ser denso, espesso, quase inviolável. O lado de dentro neutro, inacessível, quase indecifrável.
Os dois se contradizem e combatem na indelével opacidade da vida; às vezes se encontram na insone sedução, às vezes se devoram na insana distração, por vezes se perdem na dificuldade de vir-a-ser, pois o outro torna-se, sartreanamente, no inferno que dorme ao lado.
Mas isso tudo não é lógica, precisão cientifica, contagem regressiva, mas sim,  (como tudo que se refere ao humano) possibilidade,  envolvimento (inter-esse),  disposição...

Depende da força de ser e de se posicionar um para o outro, depende de como se vive e se apreende significativamente o momento, de como um consegue ver o lado do outro, em sua aparente neutralidade, em sua incandescente diversidade, em sua envolvente fragilidade…