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Bacalhoada ou Miojo?

Vivemos tempos turvos onde a desinformação, o fanatismo, o desrespeito e a estupidez proliferam. Uma das coisas mais bizarras que assistimos nesses tempos são os ataques à figura do educador Paulo Freire. Freire, como está amplamente divulgado, possui fundamentais obras, ações e reconhecimento público, não apenas no Brasil, mais em todo mundo; tendo sido inclusive, entre muitas honrarias, incluído na capital da Suécia, Estocolmo, em uma escultura que homenageia os sete pensadores que foram considerados os mais importantes nas décadas de 60/70. Mas isso não impede - aqui no Brasil - o descalabro e a insensatez nesses nossos famigerados dias de fanatismo e estupidez ideológica em relação à figura de Freire. Um amigo meu professor relatou que, acabando de chegar a uma escola nova, foi imperativamente interpelado - à queima-roupa, diga-se de passagem - por um outro "educador":
- Paulo Freire ou Olavo de Carvalho?
Isso seria o mesmo (do ponto de vista epistemológico, fenomenológic…
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Ensaio sobre a pasteurização dos afetos

Chegamos ao tempo dos afetos pasteurizados. Acasos sonsos, omissos casos, descasos parcos, transações tristes, afagos fáceis, favoráveis, indiferentes, liquidados a perder de vista.

Qualquer gesto será desmitificado, desqualificado, massificado enquanto tal; sem qualquer conotação verbal, apenas imediato contato casual.
É mesmo necessário evitar-se a fala, nenhum sentido expresso, nenhum excesso de sentimento, nenhum impresso pertencimento. Falemos pouco, (ou quase nada mesmo) sejamos lacônicos, patéticos, distraídos, risonhos, fofos, risíveis...
É mesmo necessário, (praticamente um imperativo ético) pasteurizar o riso, articulá-lo em seu vazio pleno, mumificá-lo em sua dimensão tetânica. Não há motivos para buscarmos profundidade em nossos encontros; já estamos vastos de nós mesmos, autossuficientes, autossustentáveis, autodeterminados, autocontrolados.
Temos um império insípido e hipertrofiado dentro das nossas pequenas cabeças: por que haveríamos de perder tempo em perceber o outro?
Usa…

Conheça o ES de Hartung: paraíso do caos e da Isenção Fiscal

Apesar da alcunha que lhe é dada de “Imperador” - por sua arrogância, impiedade e soberba - o governador Paulo Hartung não vai além de um serviçal de luxo. Ele faz parte do braço político (no sentido degradante da palavra) de um grupo, muito bem pensado e articulado, para fazer do Espírito Santo sua maior fonte, em detrimento aos reais interesses e necessidades da maioria da população capixaba. A origem do caos que vivemos nesse momento, do visível sucateamento dos serviços públicos, que explodiu e veio à tona com o movimento de paralisação dos policiais militares, tem como origem essa lógica de poder da qual Hartung atua como uma espécie de “leão de chácara”.
O Espírito Santo deveria ser - por simples lógica geopolítica - uma “Suíça” encrustada em território brasileiro. Com uma extensão geográfica similar ao Rio de Janeiro (cerca de 46 mil km2 ), mas com população quatro vezes menor (cerca de 3,8 milhões de habitantes) e com recursos econômicos suficientes para dar dignidade de vida p…

Por que estamos todos doentes no ES?

Temos, por hábito, analisar as coisas por seus efeitos imediatos, esquecendo do processo que gerou o fato que nos afeta. Também pela mesma velha força do hábito (como diria Hume), apontamos a causa que vemos mais próxima como a fonte de origem do mal que sofremos. É mais ou menos isso, de modo geral, que acontece agora aqui no Espírito Santo quando acoados, amedrontados e ilhados – literalmente - apontamos simplesmente a “PM” como causa do horror social que estamos vivendo; que pela “ausência” dela em nosso cotidiano estamos fadados ao desamparo e à barbárie. Isso seria o mesmo que dizer que o remédio é a causa da doença.
Como a “VIOLÊNCIA” - do ponto de vista de uma coletividade - é uma “doença social” é a partir disso que temos que tentar aprofundar nossa reflexão, para não continuarmos na superfície das coisas, respondendo aos impulsos imediatos que nos afastam desse entendimento. Como “doença social” a “VIOLÊNCIA” tem sua origem na desigualdade social, na exclusão, na corrupção, …

Sobre a opacidade de dormir ao lado

No dormir do lado - mesmo que se acredite nascidos um para o outro - há muito o que se pensar; principalmente quando - antes de se refletir - não se consegue sentir, perceber,  notar, compartilhar o lado do outro.
O lado de fora pode ser denso, espesso, quase inviolável. O lado de dentro neutro, inacessível, quase indecifrável.
Os dois se contradizem e combatem na indelével opacidade da vida; às vezes se encontram na insone sedução, às vezes se devoram na insana distração, por vezes se perdem na dificuldade de vir-a-ser, pois o outro torna-se, sartreanamente, no inferno que dorme ao lado.
Mas isso tudo não é lógica, precisão cientifica, contagem regressiva, mas sim,  (como tudo que se refere ao humano) possibilidade,  envolvimento (inter-esse),  disposição...

Depende da força de ser e de se posicionar um para o outro, depende de como se vive e se apreende significativamente o momento, de como um consegue ver o lado do outro, em sua aparente neutralidade, em sua incandescente diversidade, em sua envolvente fragilidade…

Ano Novo: Paz ou Guerra

Nesta época do ano – quase que por uma questão de hábito – desejamos paz e harmonia aos que fazem parte do nosso círculo de amizades. Mas sabemos que no fundo – como bem assinalou o pensador Heráclito – a vida é uma constante guerra, confronto, luta.
Então o que poderia ser a paz, já que estamos jogados ao acontecer do mundo que exige sempre o combate?
Talvez os pequenos encontros que nos revigoram para a eterna luta: a troca de olhares, o acolhimento, a ternura, o carinho e o afeto que – cada vez mais escassos e provisórios - a amizade e a consideração entre as pessoas possibilitam mesmo diante da necessidade imposta por sobrevivência e autorrealização no nosso dia-a-dia.

Então que possamos vencer nossos distanciamentos e ter mais momentos de encontros, olhares, abraços e afetos neste ano novo, para que a nossa “Paz” não seja apenas a lembrança digitalizada de uma mensagem ou de uma animação de GIF...

PEC 241: Temer reedita o AI5

Assistimos perplexos e, de certa forma, desmobilizados a edição e aprovação na Câmaras dos Deputados da imoral e humilhante PEC 241. De modo mais sofisticado e dissimulado, mas nem por isso menos cruel, podemos afirmar tranquilamente que essa PEC é filha bastarda do AI5. Ela representa inexoravelmente o retorno à indiferença e à barbárie social, relocando o Brasil nos trilhos do colonialismo, de uma ideologia servil e escravagista.
Sob a falácia da “austeridade monetária”, mas sem sequer citar o monstruoso gasto com a dívida pública que beneficia os banqueiros, o golpista e entreguista Temer retira dos mais necessitados uma ainda frágil base e garantia institucional que foi construída para que – minimamente, diga-se de passagem – pudéssemos ter alguma consideração, respeito e visão de futuro para diminuirmos os ainda medievais percentuais de desigualdade que temos; realidade que a mentalidade “aristocrática”, de uma suposta “elite”, tem pavor de ver alterada; o paradigma aqui nem cap…