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Mostrando postagens de 2018

O conceito de "aura" em Walter Benjamim

Nos escritos de  “ Pequena História da Fotografia” e “ A obra de Arte na era de sua reprodutibilidade técnica ” Walter Benjamim define que a dimensão “ aurática” de um objeto seria reconhecida pela singularidade de sua aparição, isto é, pelo seu caráter único, perpassado por determinações relativas ao espaço e a temporalidade em que está inserido. Independente da proximidade física com o objeto ou obra de arte, teria-se uma espécie de distância ontológica conceitual determinada por uma propriedade de culto e magia na qual estaria envolto.  Para Benjamim o fenômeno da aura estaria primordialmente ligado ao caráter de unicidade e autenticidade da obra. Fazendo o que poderíamos chamar de uma “ genealogia da aura ”, Benjamim constata que existe um momento primeiro que estabelece o surgimento da aura no contexto cultural da humanidade: ela seria contemporânea da utilização da obra de arte nos rituais religiosos.  Temos nessa dimensão que o objeto ou obra utilizada ritualisti

Eleições 2018: a barbárie como pedagogia

Refletir sobre “Política” é obrigatoriamente pensar “Ética”, já demonstrava bem Aristóteles nos primórdios do pensamento da cultura ocidental. A Política, em sua visão originária, era a atividade que mais explicitava a dimensão racional e capacidade discursiva do ser humano que, socialmente organizado, buscava o bem comum da coletividade por meio do diálogo crítico e entendimento recíproco. O que assistimos hoje no Brasil passa bem longe da prática inaugurada e conceituada pelos gregos, mesmo tendo passado mais 25 séculos de história da chamada “Civilização Ocidental”. O que temos hoje é um discurso e prática de ódio, violência, falsidades, mentiras,  hipocrisia e  manipulação, difundido sobretudo pelas "redes sociais", que está muito longe de ser vista como “atividade política”. “Evoluímos” como “sociedade” apenas do ponto de vista técnico-digital: do ponto de vista Ético, de modo dominante, nós brasileiros vivemos numa sociedade da intolerância, do ódio e da barbári

Filósofo sendo analisado...

 - O senhor pensa muito na morte?  - Sim doutora, todos os dias.  - E por que?  - Porque a questão mais radical para se pensar o fenômeno humano é sua dimensão e consciência da finitude.    Concordo com Camus...  - Com quem???  - Camus, Albert Camus, o filósofo..  - Ah sim... Prosiga, o que ele diz?  - Que a questão mais fundamental para se refletir é a da morte...  - Sim, sim... Mas não foi dessa forma precisamente que eu estava me referindo; queria saber se o       senhor tem   ideias suicidas.  - Acho que a maioria das pessoas tem, inclusive a senhora..  - Mas o senhor tem isso de modo recorrente?  - Não, estou com Camus de novo...  - Como assim?  - É porque na visão dele a vida é um absurdo, sendo assim o suicídio da mesma forma é um absurdo,   porque as  pessoas se matam por levar muito a sério a vida, os valores que são colocados prá nós em   termos de sucesso,  fracasso, realização, etc...  - Entendi. Já deu a hora, vamos encerrar por aqui hoje.  - Ok, doutora. E quanto foi

Quantos gatos valem um Papo-Furado?

A atual Diretoria da Unidos da Piedade continua – dentro do projeto de vingança pessoal do atual Presidente da agremiação - na contramão da história, da tradição, da memória, dos valores e dos símbolos culturais, não apenas da Cidade de Vitória, mas de todo Estado do Espírito Santo. Indiferente ao abissal fato de 2019 ser o ano em que Edson Papo-Furado completará 80 anos de vida, e mesmo diante de um abaixo-assinado solicitando ele como enredo da Escola, a atual Diretoria decretou que o tema que levaria a escola para a avenida seria sobre  “felinos” . Essa escolha tem requintes de crueldade, estupidez simbólica, frieza humana, ressentimento medíocre e descaso com a história e representatividade que Papo-Furado e seus companheiros da Piedade (Paru, Caroço, Mario Reboco, entre outros que já partiram) tem para a cultura Capixaba. Como se não bastasse as pífias, bisonhas e excludentes  “políticas  públicas  culturais”  que assolam e enterram vivos tantos artistas, temos ainda que conv

Ensaio sobre a incandescência humana

I mpossível a vida não se dilatar diante dos teus incandescentes olhos. Irradiante presença plena de vigor e sentidos, que surge rompendo paternais dilacerações: afetos aturdidos sutilmente superados e ressignificados em olhares-poemas, irremediavelmente singelos, indelevelmente doces, incendiantemente penetrantes… Há música em teus olhos: (ouvi sim Cartola! quando os senti) flores que brotam, rosas que falam dos perfumados e irreverentes tons azuis dos teus cabelos: surpreendente acetinado de inebriante força, magia, ternura, carisma, beleza... Olhar de melodias vibrantes, em sútil corpo de bailarina que flui, serpenteia, encanta, desenha e preenche poeticamente o espaço de sonhos esquecidos, de tempos perdidos, de um amor impossível.

Desde quando a Filosofia atrapalha aprender Matemática?

Uma pesquisa sorrateiramente encomendada, que foi divulgada pelo jornal "Folha de São Paulo" - partindo de um estranho método de cruzamento de dados - chegou a conclusão que o estudo da Filosofia e da Sociologia "atrapalham" o aprendizado da Matemática. Além de ridiculamente estapafúrdia, essa "pesquisa" contradiz toda História do conhecimento Ocidental. A Filosofia, por exemplo, nunca atrapalhou à Tales de Mileto, Pitágoras de Samos, Demócrito de Abdera, Platão de Atenas, Aristóteles de Estagira, Renê Descartes, Blaise Pascal, Leibniz, Bertrand Russell, Edmund Husserl, Wittgenstein, e outros, a "aprender Matemática". Inclusive é facilmente deduzível - analisando o pensamento, teses e teorias que expressaram - que eles sejam grandes Matemáticos porque são, da mesma forma, Filósofos. É essa a tal "Escola sem Partido" - que na verdade é o "Partido da Estupidez" - que eles querem implantar, ou seja, para produzir mão-de-

Ensaio sobre a pasteurização dos afetos

Chegamos ao tempo dos afetos pasteurizados. Acasos sonsos, omissos casos, descasos parcos, transações tristes, afagos fáceis, favoráveis, indiferentes, liquidados a perder de vista. Qualquer gesto será desmitificado, desqualificado, massificado enquanto tal; sem qualquer conotação verbal, apenas imediato contato casual. É mesmo necessário evitar-se a fala, nenhum sentido expresso, nenhum excesso de sentimento, nenhum impresso pertencimento. Falemos pouco, (ou quase nada mesmo) sejamos lacônicos, patéticos, distraídos, risonhos, fofos, risíveis... É mesmo necessário, (praticamente um imperativo ético) pasteurizar o riso, articulá-lo em seu vazio pleno, mumificá-lo em sua dimensão tetânica. Não há motivos para buscarmos profundidade em nossos encontros; já estamos vastos de nós mesmos, autossuficientes, autossustentáveis, autodeterminados, autocontrolados. Temos um império insípido e hipertrofiado dentro das nossas pequenas