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Sobre a opacidade de dormir ao lado

No dormir do lado - mesmo que se acredite nascidos um para o outro - há muito o que se pensar; principalmente quando - antes de se refletir - não se consegue sentir, perceber,  notar, compartilhar o lado do outro. O lado de fora pode ser denso, espesso, quase inviolável. O lado de dentro neutro, inacessível, quase indecifrável. Os dois se contradizem e combatem na indelével opacidade da vida; às vezes se encontram na insone sedução, às vezes se devoram na insana distração, por vezes se perdem na dificuldade de vir-a-ser, pois o outro torna-se, sartreanamente, no inferno que dorme ao lado. Mas isso tudo não é lógica, precisão cientifica, contagem regressiva, mas sim,  (como tudo que se refere ao humano) possibilidade,  envolvimento (inter-esse),  disposição... Depende da força de ser e de se posicionar um para o outro, depende de como se vive e se apreende significativamente o momento, ...

Ano Novo: Paz ou Guerra

Nesta época do ano – quase que por uma questão de hábito – desejamos paz e harmonia aos que fazem parte do nosso círculo de amizades. Mas sabemos que no fundo – como bem assinalou o pensador Heráclito – a vida é uma constante guerra, confronto, luta. Então o que poderia ser a paz, já que estamos jogados ao acontecer do mundo que exige sempre o combate? Talvez os pequenos encontros que nos revigoram para a eterna luta: a troca de olhares, o acolhimento, a ternura, o carinho e o afeto que – cada vez mais escassos e provisórios - a amizade e a consideração entre as pessoas possibilitam mesmo diante da necessidade imposta por sobrevivência e autorrealização no nosso dia-a-dia. Então que possamos vencer nossos distanciamentos e ter mais momentos de encontros, olhares, abraços e afetos neste ano novo, para que a nossa “Paz” não seja apenas a lembrança digitalizada de uma mensagem ou de uma animação de GIF...  

PEC 241: Temer reedita o AI5

Assistimos perplexos e, de certa forma, desmobilizados a edição e aprovação na Câmaras dos Deputados da imoral e humilhante PEC 241. De modo mais sofisticado e dissimulado, mas nem por isso menos cruel, podemos afirmar tranquilamente que essa PEC é filha bastarda do AI5. Ela representa inexoravelmente o retorno à indiferença e à barbárie social, relocando o Brasil nos trilhos do colonialismo, de uma ideologia servil e escravagista. Sob a falácia da “austeridade monetária”, mas sem sequer citar o monstruoso gasto com a dívida pública que beneficia os banqueiros, o golpista e entreguista Temer retira dos mais necessitados uma ainda frágil base e garantia institucional que foi construída para que – minimamente, diga-se de passagem – pudéssemos ter alguma consideração, respeito e visão de futuro para diminuirmos os ainda medievais percentuais de desigualdade que temos; realidade que a mentalidade “aristocrática”, de uma suposta “elite”, tem pavor de ver alterada; o paradigma aqui nem ...

A Globo no comando do Golpe

Emito minha opinião a partir das minhas percepções, fato que todos têm o direito de fazê-lo, mas que somente é possível hoje porque lutamos, desejamos e arriscamos nossas vidas por isso: LIBERDADE e DEMOCRACIA. Vemos agora, novamente, o mesmo discurso de "patriotismo" exacerbado, que já construiu Hitler, Mussolini e, no nosso caso, a Ditadura Militar que nos vendeu aos interesses dos Estados Unidos, atitude nada patriótica na prática; mantenho a minha opinião sobre a origem fascista e retrógrada dessa onda, que clama pela volta da ditadura, pelo fim das cotas e do bolsa família, pelo ódio às ideias de Paulo Freire, etc, etc., e, sobretudo, quando vejo tipos como Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, etc., como líderes. Sabemos que em todos os movimentos há, de alguma forma, comandantes e comandados. Sabemos também que por trás das ideias se movem interesses não revelados que muitos não percebem; e, nessa nova onda, que se apoia no antipetismo como fundamento aparente, temos mais...

A lama e o lucro

Antes dessa lama havia um rio que era bom que era irmão que era Doce Dentro desse rio corria memória corria sonho corria vida Às margens desse rio havia história havia gente havia arte E agora, o que temos? perdemos memória perdemos sonho perdemos vida a nossa história a nossa gente a nossa arte virou lama virou lixo virou luto Lucro que VALE nada!

O que nos ensinam os Brincantes?

(Texto Concebido para a Mostra Fotográfica comemorativa dos 10 anos do Projeto Entre Comunidades - PROEX/UFES) Contrapondo-se à dinâmica objetivista - do pensamento de sobrevoo ditado pelas pesquisas - o Projeto Entre Comunidades busca interagir, ser perpassado pelas dimensões humanas do fazer coletivo e, a partir desse entrelaçamento constitutivo, desenvolver e promover ações de Empoderamento e Reconhecimento. O que veremos nesta exposição fotográfica comemorativa de 10 anos do Projeto - trazidas por esse movimento de compartilhamento recíproco - são imagens de dimensões simbólicas sagradas, de pessoas que resistem e lutam para defender e expressar sua humanidade, mesmo diante da monstruosidade pasteurizadora da cultura midiática e, na maioria das vezes, da indiferença e do descaso oficial. As heranças culturais aqui captadas identificam, em sua diversidade, o modo de ser dos capixabas; os gestos, olhares, ritmos, suores e cores são elementos de linguagem, de visões de m...

As inflexões sobre o "Vir-a-Ser"

Um dos sentidos possíveis para a palavra grega aisthesis (estética) seria inspirar, trazer o mundo para dentro, senti-lo, revolvê-lo ou, até mesmo, comê-lo; como fazia Cronos com seus filhos, tentando evitar uma possível ameaça futura. E parece ser esse o espírito movente da exposição “Vir-a-Ser” de Ana Lúcia Gonçalves. Através da arte busca-se sempre, de alguma forma, um desvelamento do seu tempo/espaço vivente; tenta-se dissolver a concretude emoldurada do real e remontar,  em sua plasticidade residual, uma estrutura significante. Mas ao tentar compreender - e dar sentido efetivo as suas vivências – depara-se com seus próprios dilemas, angústias, zelos, desvelos… Nesse esforço de (re)constituir-se ela, como artista, tem que inexoravelmente debruçar-se sobre o emaranhado novelo de dúvidas, perdas, contradições inerentes ao próprio processo de viver; becos e vielas - linhos e desalinhos existenciais. Inspirar de novo seu próprio mundo, degustar poeticamente suas crias, reassu...