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A Masmorra Cultural de Paulo Hartung

O ex-governador Hartung é um homem fechado; é um homem duro; em suma, é um homem de masmorras. E apesar de toda massificação propagandista feita - a expensas do erário público – para elevar sua figura ao estatuto de um estadista, creio que ele será lembrado no futuro por seu estilo masmorrento, que terá seu símbolo máximo com a edificação do “CAIS DAS ARTES”, um projeto personalista, faraônico e dispendioso que será erguido em detrimento às reais e urgentes necessidades da população e do fragilizado setor cultural do Espírito Santo. Hartung mantém viva a velha concepção centralizadora e onipotente que caracteriza a política oligárquica que muitos pensavam ultrapassada e enterrada. Ele - que no passado se arvorou como líder estudantil de esquerda - mostrou no decorrer desses últimos oito anos sua verdadeira e ortodoxa genealogia, fincada nos mais fiéis princípios do coronelismo. O que estamos identificando aqui, é que o famigerado caso das cadeias metálicas comparadas com masmorras med...

Gilbert Chaudanne: o metafísico de essências carnais

Há muito se tenta entender a pintura a partir de apriorismos psicológicos ou teorias contemplativas e se esquece do corpo. Não se considera como constituinte a radicalidade selvagem da carne humana, que se entrega num jogo de contração e distração ao se lançar no abismo da criação, emprestando sua dimensão perceptiva e seus movimentos vicerais ao desvelar-se da obra. Mas aqui o nascimento da obra como tal, também é sempre um re-nascimento do homem, um sempre buscar-se e reapresentar-se ao mundo. Existe no ato de quem pinta um tocar e ser tocado e também, paralelamente, um sentir e ser sentido. Aqui a divisão epistemológica moderna - do “sujeito” que compõe e do “objeto” que é composto - não vigora. Se o artista constitui algo para se olhar, não tem como evitar que - numa ampliação de perspectiva - também é olhado por ela. Se o homem se faz na obra e correlatamente a obra está inundada por suas “essências”, não podemos deixar de considerar sua corporeidade. E encontramos essa contundênc...

O Espírito de Circe

Na Odisséia grega, narrada por Homero, existe a ação de Circe, uma feiticeira poderosa e louca que aprisiona seus inimigos mais fortes e transforma os outros em porcos, que depois brigam entre si pelas migalhas jogadas como alimento. O páthos de Circe não aniquila, mas assola, causa desolamento; e aqui desolar é pior do que aniquilar; a desolação é o que institui o deserto e o desolamento e, mantendo o existente, acaba com a possibilidade de CRIAR e exclui a vigência da LIBERDADE. É isso que denomino aqui de “Espírito de Circe”, do qual está eivado o modus operandi do Governador do Estado do Espírito Santo, no que se refere, principalmente, ao tratamento e a consideração destinada aos artistas locais, tendo como exemplo mais contundente o estardalhaço midiático para o lançamento desse caquético “Edital da Cultura”, que considero degradante e vergonhoso diante da importância e dimensão econômica do nosso Estado no quadro nacional. O Governador atual - envolto em uma aura de ex-militante...

O que é isso, o Brincante?

Considera-se o artista Brincante como um legítimo representante da “cultura popular”. A separação entre “cultura” e “cultura popular” é algo que cristaliza vários preconceitos. Distingue a última como um tipo de “fazer” desprovido de um “saber”, ou uma coisa “velha”, fruto da “tradição”, resíduo de uma gente em extinção. O termo “cultura popular” direciona para o passado, para um espaço perdido, para uma ruína que ainda resiste diante do fim inexorável. Já o que designa “cultura” - em contraposição a sua designação como “popular” - aponta para um saber atualizado, abarrotado de conhecimento comprovado e necessário; nessa acepção estamos “antenados com o presente” e “preparados para o futuro”. Na maioria das vezes quando ouvimos dizer que “fulano tem muita cultura”, está se referindo a alguém que adquiriu títulos, escreveu livros ou possui notoriedade por sua “produção intelectual”. Não se trata aqui de uma “cultura qualquer” que se apreende ordinariamente no meio da rua. Esse “suj...

Berimbau 2 x O Acadêmico

Em maio último Antonio Dantas, coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ao tentar justificar o baixo conceito alcançado no ENADE, afirmou que isto é devido “ao baiano tem baixo Q.I”. Afirmou ainda categoricamente que “o berimbau é um instrumento prá quem tem poucos neurônios , pois possui somente uma corda .” A retórica empolada e cientificista de Dantas é um recurso largamente utilizado em nossos dias para justificar e explicar fatos e fenômenos em geral; e por força ideológica e midiática, ganha comumente contorno de verdade absoluta e inquestionável. A fala do Dr. Coordenador revela um ranço de pureza étnica vigente em nossa “elite”, que ainda determina os rumos do país e mantém firme nosso aviltante quadro de desigualdade e segregação social. O “especialista” é o maior porta voz e defensor da estrutura dominante. Mas o que mais pode estar na raiz desse discurso? Para tentar entender um pouco mais claramente essa questão, deixaremos de lado ...

O Senso Comum como instância de Poder

A Filosofia ao longo de sua história, institui-se como um saber superior visando indagar e elucidar a verdade absoluta, a essência primeira, ou ainda - ao se transvestir em epistemologia - dignificar possibilidades e limites para o conhecimento. Em sua busca essencialista, as teorias ou doutrinas filosóficas, elegeram como uma espécie de “lixo a ser removido” o que se determina como “senso comum” ou “opinião pública”. Afastada do ensino fundamental, a filosofia se vê agora obrigada a restabelecer um diálogo em que o discurso rebuscado e empolado, se determina como um obstáculo a ser transposto. O reconhecimento do universo do outro como digno e dignificante se apresenta agora como fundamental para se estabelecer uma relação e um encontro. Mas para isso faz-se necessário uma autorreflexão dos responsáveis pelo exercício filosófico para se situarem dentro do contexto próprio em que estão imersos, questionando a aura de “livre pensamento” em que está envolta a filosofia.    T...

O que é isso, a "inclusão social"?

“O meu linguajar é nato Eu não estou falando grego...”. (Zeca Pagodinho) “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro...” (O Rappa) O Brasil é uma "nação", não resta dúvida. Temos hino, bandeira, língua pátria e um certo “orgulho nacional” que se hipertrofia principalmente durante o período da copa do mundo. A tão propagada miscigenação étnico-cultural que teria forjado essa nação, não conseguiu eliminar o que lhe é mais próprio: contradições, diferenças e conflitos. A construção da “identidade nacional” deu-se a fórceps. A hegemonia de um determinado modo de ser, da formação de uma ideologia e modelo de humanidade, não foi estabelecida - e continua sendo mantida - com tanta cordialidade e sensualidade como promulgam alguns. Aqui há conflito, guerra, resistência, luta, "pólemos" - como diriam os antigos gregos.. Na ocupação portuguesa e embate com os povos que habitavam esta Pindorama, já se estabeleceu o modus operandi próprio do dominador, que perpassara ...