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L`Ode Triomphale: a transvaloração da Tekne

Existem espetáculos que nos agradam e outros que nos fazem transcender; esse último é o caso de L´Ode Triomphale, apresentado no Festival de Teatro Cidade de Vitória. Tendo como suporte verbal a poética de Fernando Pessoa, o grupo Theatre D´Or constrói uma proposta insólita que com seu impacto provoca uma reflexão sobre a contemporaneidade tecnológica e o humano que emerge dentro das necessidades, conformações e deformações impostas por essa relação.


O espetáculo, desenvolvido a partir de uma proposta minimalista e intimista, mostra o caráter de resistência e reconstituição do homem num mundo de condicionamentos tecnológicos. O corpo reclama seu movimento, seu imaginário, sua força, seu erotismo. A palavra exige sua pré-existência carnal. A percepção reconstrói seus sentidos afetivos. O humano reedifica sua humanidade. O jogar com os objetos e o brincar com a matéria bruta industrializada e suas possibilidades sonoras, visuais e táteis - com a seriedade existencial que decorre pelo perpassamento de Pessoa – fazem eclodir uma multiplicidade de sentidos que nos retiram da região de conforto e conformidade determinados pela força repetitiva do hábito. Os artefatos fabricados, vistos comumente como extensões produtivas ou fetichistas, ganham nesse espetáculo consistência e aderência afetiva ao se confrontarem com a dimensão criativa do homem-artista.


Equilíbrio, força, movimento, poética: a corporeidade impõe sua humanidade e retoma sua expansão significativa. Esse movimento de transvaloração, de retomada do humano tem sem dúvida um caráter de confronto, de guerra e de perdas necessárias, que fazem brotar os novos sentidos. Aqui o polemos grego – envolto pelo dilema da modernidade - retoma seu sentido originário de combate e recupera, com Pessoa, sua contundência metafísica agregando uma dimensão pulsional: a explosão do desejo é inexorável. Há algo sim para além das máquinas. Há algo sim para além das extensões mecânicas. Há algo sim para além desses corpos enrijecidos e conformados pela exigência tecnológica. Mas esse “além” não é extramundano: ele é imanente e se presentifica através de uma tomada de posição, de uma nova visada do homem. O transcender é o movimento próprio do humano na vigência de seu mundo circundante.


O Theatre D´Or, com esse espetáculo visceral, inquietante e poético, nos acorda para o desafio de reabitarmos criativamente o mundo e reafirmamos nossa humanidade. Não conseguiremos mais expulsar a Deusa Tékne do nosso mundo, mais podemos chamá-la para dançar, cantar, brincar, transar. Mas para isso teremos que revigorar nossa radicalidade como humanos; reavivar a partir desse emaranhado estorvo tecnológico a corporeidade, a musicalidade, a percepção e a poética; recuperar, no homem produtivo e conformado, o homem criador e desejante.

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