quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Por que estamos todos doentes no ES?

Temos, por hábito, analisar as coisas por seus efeitos imediatos, esquecendo do processo que gerou o fato que nos afeta. Também pela mesma velha força do hábito (como diria Hume), apontamos a causa que vemos mais próxima como a fonte de origem do mal que sofremos. É mais ou menos isso, de modo geral, que acontece agora aqui no Espírito Santo quando acoados, amedrontados e ilhados – literalmente - apontamos simplesmente a “PM” como causa do horror social que estamos vivendo; que pela “ausência” dela em nosso cotidiano estamos fadados ao desamparo e à barbárie. Isso seria o mesmo que dizer que o remédio é a causa da doença.

Como a “VIOLÊNCIA” - do ponto de vista de uma coletividade - é uma “doença social” é a partir disso que temos que tentar aprofundar nossa reflexão, para não continuarmos na superfície das coisas, respondendo aos impulsos imediatos que nos afastam desse entendimento. Como “doença social” a “VIOLÊNCIA” tem sua origem na desigualdade social, na exclusão, na corrupção, na construção da ideologia do consumo, na ausência de ações e políticas sociais e na proliferação endêmica de “periferias”, “bolsões de pobreza”, “aglomerados sociais”, que - na camuflagem oficial criada pra esconder essa dinâmica – recebem a denominação de “comunidades carentes” e/ou “comunidades em risco social”.

Então, quanto mais desigual for a sociedade, quando mais excludente se constituir, quanto mais ausente do combate às questões sociais for, quando mais elitista se apresentar, mais se precisará da instituição “´POLICIA” para conter, reprimir, atuar como bálsamo, remédio, paliativo dos efeitos da doença social chamada “VIOLÊNCIA”. É por isso que - com sua ausência momentânea - nos sentimos, em proporções coletivas, como se estivéssemos num surto psicótico: queremos o nosso psicotrópico de volta para voltar à tranquilidade. E, nesse caso, o fármaco atende pelo nome de “POLÍCIA”.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sobre a opacidade de dormir ao lado


No dormir do lado
- mesmo que se acredite nascidos um para o outro -
há muito o que se pensar;
principalmente quando
- antes de se refletir -
não se consegue sentir,
perceber,  notar,
compartilhar o lado do outro.

O lado de fora pode ser denso,
espesso, quase inviolável.
O lado de dentro neutro, inacessível,
quase indecifrável.

Os dois se contradizem e combatem
na indelével opacidade da vida;
às vezes se encontram na insone sedução,
às vezes se devoram na insana distração,
por vezes se perdem na dificuldade de vir-a-ser,
pois o outro torna-se, sartreanamente,
no inferno que dorme ao lado.

Mas isso tudo não é lógica,
precisão cientifica,
contagem regressiva...
mas sim, 
- como tudo que se refere ao humano -
possibilidade,  envolvimento (inter-esse), 
disposição; depende da força de ser e de se posicionar
um para o outro,
depende de como se vive e se apreende
significativamente o momento,
de como um consegue ver o lado do outro,
em sua aparente neutralidade,
em sua incandescente diversidade,
 em sua aparente fragilidade.

Há também, 
nesse jogo,
 a possibilidade de se virar de lado,
de ocupar o espaço do outro,
de se ver no escuro
(mesmo com a escassa luz)
de destravar a cama,
de fazer da vida uma dança
onde o outro
- ao se revelar por inteiro -
não seja apenas o par que, 
indiferentemente,
conduz.

Mas para isso há 
que se aprender a dançar, deixar de ficar 
- assim como se conta os passos -
a contar as horas...



sábado, 31 de dezembro de 2016

Ano Novo: Paz ou Guerra

Nesta época do ano – quase que por uma questão de hábito – desejamos paz e harmonia aos que fazem parte do nosso círculo de amizades. Mas sabemos que no fundo – como bem assinalou o pensador Heráclito – a vida é uma constante guerra, confronto, luta.

Então o que poderia ser a paz, já que estamos jogados ao acontecer do mundo que exige sempre o combate?

Talvez os pequenos encontros que nos revigoram para a eterna luta: a troca de olhares, o acolhimento, a ternura, o carinho e o afeto que – cada vez mais escassos e provisórios - a amizade e a consideração entre as pessoas possibilitam mesmo diante da necessidade imposta por sobrevivência e autorrealização no nosso dia-a-dia.


Então que possamos vencer nossos distanciamentos e ter mais momentos de encontros, olhares, abraços e afetos neste ano novo, para que a nossa “Paz” não seja apenas a lembrança digitalizada de uma mensagem ou de uma animação de GIF...  

domingo, 16 de outubro de 2016

PEC 241: Temer reedita o AI5

Assistimos perplexos e, de certa forma, desmobilizados a edição e aprovação na Câmaras dos Deputados da imoral e humilhante PEC 241. De modo mais sofisticado e dissimulado, mas nem por isso menos cruel, podemos afirmar tranquilamente que essa PEC é filha bastarda do AI5. Ela representa inexoravelmente o retorno à indiferença e à barbárie social, relocando o Brasil nos trilhos do colonialismo, de uma ideologia servil e escravagista.

Sob a falácia da “austeridade monetária”, mas sem sequer citar o monstruoso gasto com a dívida pública que beneficia os banqueiros, o golpista e entreguista Temer retira dos mais necessitados uma ainda frágil base e garantia institucional que foi construída para que – minimamente, diga-se de passagem – pudéssemos ter alguma consideração, respeito e visão de futuro para diminuirmos os ainda medievais percentuais de desigualdade que temos; realidade que a mentalidade “aristocrática”, de uma suposta “elite”, tem pavor de ver alterada; o paradigma aqui nem capitalista é ainda, pois sequer cogita que possa haver algum tipo de “mobilidade social”, umas das teses que o capitalismo - em seu pseudodarwinismo social - utiliza para manter seu ideal de dominação. 

A visão social – se é que podemos classificar desta maneira - do lacaio Temer e seus asseclas é algo similar ao Sistema de Castas; ou seja, se você nasceu pobre e miserável é porque Deus quis; azar o seu se a sua condição for esta; se conforme com seu destino miserável e espere pelo juízo final; ter Educação e Saúde de qualidade é para as “Castas Superiores”, para os que podem pagar, para os que foram “escolhidos” por vontade divina; a frase dita pelo Deputado Nelson Marquezelli (PTB/SP) demonstra bem isso: “Quem não tem dinheiro não faz faculdade.”

O pior é que o grosso da população, anestesiada em grande parte pelo espetáculo midiático da Lava-Jato, parece não se dá conta do grau de crueldade, humilhação e exclusão de direitos sociais que serão instituídos pelo Desgoverno Temer – com o aval de um Congresso igualmente imoral - através da PEC 241. Estamos assistindo, de modo análogo, a efetivação de um movimento que lembra muito também o projeto de extermínio Nazista: a PEC 241 é uma espécie de “Câmara de Gás Social”; a morte será lenta, fria, indiferente, gradual...

quinta-feira, 17 de março de 2016

A Globo no comando do Golpe

Emito minha opinião a partir das minhas percepções, fato que todos têm o direito de fazê-lo, mas que somente é possível hoje porque lutamos, desejamos e arriscamos nossas vidas por isso: LIBERDADE e DEMOCRACIA. Vemos agora, novamente, o mesmo discurso de "patriotismo" exacerbado, que já construiu Hitler, Mussolini e, no nosso caso, a Ditadura Militar que nos vendeu aos interesses dos Estados Unidos, atitude nada patriótica na prática; mantenho a minha opinião sobre a origem fascista e retrógrada dessa onda, que clama pela volta da ditadura, pelo fim das cotas e do bolsa família, pelo ódio às ideias de Paulo Freire, etc, etc., e, sobretudo, quando vejo tipos como Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, etc., como líderes.
Sabemos que em todos os movimentos há, de alguma forma, comandantes e comandados. Sabemos também que por trás das ideias se movem interesses não revelados que muitos não percebem; e, nessa nova onda, que se apoia no antipetismo como fundamento aparente, temos mais uma vez o comando ideológico da nefasta, golpista e fascista Rede Globo (junto das poucas famílias que detém o Sistema de Comunicação no Brasil), que elege quem são os vilões e os mocinhos da história e movimenta as massas na direção que lhe interessa. Foi assim no Golpe de 1964, foi assim na eleição e na derrubada do Collor e está sendo assim hoje. É claro que todos nós, cidadãos de bem, queremos políticos mais éticos e dignos, uma política para o bem comum, mais teremos, para isso, de fundamentalmente operar uma reforma política (além da Cultural), coisa que a Globo não tem o menor interesse, pois o negócio dela é poder e lucro (não necessariamente nesta mesma ordem), estando a serviço da concentração de renda, das grandes empresas capitalistas e dos interesses estrangeiro, além é claro do seu monopólio e enriquecimento. O velho Brizola já avisava: “A Globo é uma empresa estrangeira com sede no Brasil. ”
Como falar em combate à corrupção sem desmontar a estrutura de privilégios do Judiciário Brasileiro, com seus salários e suas "ajudas de custo" que humilham os brasileiros? Cadê a indignação com isso? Por que a Globo, via sua escrava Gazeta aqui no Espírito Santo (assim como acontece analogamente com Aécio em MG, Alckmin em SP, Richa em Curitiba, etc) nunca se indignou e denunciou os esquemas e arranjos escusos montados por Hartung? Cadê o tal “espírito de indignação” contra corrupção que ela propaga agora diariamente? Por que ela, tão preocupada com a corrupção, não se colocou contra a "doação" da Vale do Rio Doce no Governo FHC, uma falcatrua de altos favorecimentos a grupos privados e totalmente lesivo ao patrimônio público? Em outras palavras: por que ela não denuncia essa corrupção?
Esse "movimento patriota" jamais aconteceria se não fosse o sistemático apoio dessa mídia; sobretudo da Globo que é um caso único em países considerados “democráticos” de uma empresa com abrangência de praticamente 100% do território nacional, que promoveu uma verdadeira "limpeza étnica" na cultura brasileira, pois não há espaço em sua “grade” (literalmente) para as diversidades regionais. A Globo apoiando um movimento “contra a corrupção”? A Globo transmitindo ao vivo “manifestações populares”? Logo ela, a Globo, que se especializou em sonegar impostos e chantagear governos para levantar altíssimos lucros com dinheiro público?
Como disse em outras ocasiões, não estou aqui defendendo Dilma, Lula ou o PT, nunca fui filiado a partido nenhum, atuo politicamente nos movimentos sociais e nas dimensões políticas participativas de conselhos e entidades da sociedade civil; desejo e quero mesmo que todos sejam investigados, julgados e punidos exemplarmente, mas de modo igual, sem privilégios, sem distinção partidária ou ideológica, como determina o princípio de isonomia da Constituição Brasileira; mas o que temos neste momento é a mais pura hipocrisia e maniqueísmo ideológico querendo determinar "quem é corrupto" e "onde está a corrupção". O que não aceitamos é essa manipulação e esse oportunismo, e nos posicionamos contra o retrocesso das conquistas sociais que tivemos nos últimos anos, contra a destruição dos nossos direitos à democracia e à liberdade, contra o domínio de uma mentalidade fascistoide, elitista e hipócrita.
O PT falhou sim - e muito - como partido de esquerda (que já deixou de ser há muito tempo) e paga o preço merecido por não ter feito a revolução social de fato, que tornaria esse país mais avançado em termos de democracia e participação popular; por não ter feito a reforma política e a democratização dos meios de comunicação; por ter feito "acordos de governabilidade" que mantiveram a estrutura de corrupção que sempre existiu no Brasil; surfou na onda do crescimento econômico, que realmente promoveu mudanças e melhorias para uma grande parcela da população que vivia em condições miseráveis, mas, agora, com a recessão e queda econômica que diminui o "bolo" a ser dividido, não tem mais como se sustentar, pois os donos do capital, que se organizam em escala global, querem manter a concentração do poder, do lucro e da riqueza produzida, atacando sobretudo, as políticas de igualdade social, buscando manter o Brasil como foi em seu início e por quase toda sua história: uma colônia de exploração. Contra isso é que lutaremos, sem tréguas.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A lama e o lucro

Antes dessa lama havia um rio
que era bom
que era irmão
que era Doce

Dentro desse rio
corria memória
corria sonho
corria vida

Às margens desse rio
havia história
havia gente
havia arte

E agora,
o que temos?

perdemos memória
perdemos sonho
perdemos vida

a nossa história
a nossa gente
a nossa arte

virou lama
virou lixo
virou luto

Lucro que VALE nada!

Salgado regado à lama


Diante das críticas do posicionamento de Sebastião Salgado diante da tragédia causada pela Samarco/Vale em Mariana/MG, há opiniões sustentando que estão jogando a “reputação” do fotógrafo no lixo injustamente. Aristóteles já avisava que ética não é tarefa de um dia só, mas de toda vida. Salgado construiu sua imagem de bom samaritano humanista ao fotografar refugiados, desalojados e desvalidos, provocando indignação e repulsa aos que viam seus registros.
Mas, nota-se - para quem tem olhos de ver - que sua postura é completamente diferente em relação à tragédia criminosa brasileira promovida pela ganância, irresponsabilidade e negligência da Samarco/Vale. Esta empresa, amiúde, é financiadora dos projetos do fotógrafo que - no jargão publicitário - "agregam à marca um capital ético", de responsabilidade e sustentabilidade social, coisa que vemos, agora, ser somente um engodo mesmo.
O que vemos e não poderíamos deixar de ver - já que a imagem é clara e colorida - é que Salgado possui lentes diferentes para perceber quadros semelhantes. E como, por “coincidência”, sua empresa de "recuperação ambiental" é bancada paradoxalmente por uma outra empresa que explora e destrói esse mesmo "meio ambiente", não há como separar a sua visão defensiva e complacente com a Samarco/Vale dos favores financeiros que recebe para promover e manter sua empresa de Terceiro Setor.
O problema com Sebastião Salgado, como já disse, é que ele construiu sua imagem como homem público ao revelar o sofrimento, abandono e miséria pelo mundo afora; os seres humanos retratados por ele são vítimas desse mesmo modelo de exploração colonialista e predatório que a Vale promove no Brasil e que culminou nessa tragédia. Como poderia, então, se filiar a uma empresa que gera isso que ele - tão brilhante e dedicadamente - denunciou? Como poderia, então, não se indignar diante dos miseráveis e desalojados por este crime? Como poderia, então, se posicionar tão doce e docilmente sobre esse crime descomunal? Como poderia, então, diante disso tudo, deixar ele de ser "Sebastião Salgado"?
Por isso é que não somos nós, ao criticá-lo, que estamos "jogando sua reputação no lixo": é ele mesmo que esta fazendo isso; bem hipocritamente, diga-se de passagem. Para aceitarmos, desta forma, a conduta de Salgado e defendê-lo dos ataques à sua "reputação" teríamos que ser, considero, no mínimo ingênuos.