Pular para o conteúdo principal

Genealogia de um Anacronismo

Transponho do papel manuscrito para o plasma

um poema ainda em estado liquido.


Instável, frágil e torto. 

 

Ele não possui ainda a consistência

esperada ao ser lançado à tela,

onde ganhará uma forma e uma métrica

impostas pelo suporte digital.


Por outro lado possui

-antes de ser digitado -

um movimento, uma tensão,

um frêmito pulsar dos dedos,

que serão impossíveis de serem

transladados para a tela.


Será que ele ganha?

Será que ele perde?

Será que é indiferente?


Tenho aqui um tema?

Tenho aqui uma trama?

Tenho aqui um trauma?


Há um vigor do tema

que dispara o poema,

Um entrelaçamento de sentidos

esboça a trama,

que mais tarde se desenrola

(ou muitas vezes enrola)

em gestos rápidos e imprecisos;

o corpo se emaranha no estorvo

dos signos escritos para depois, quem sabe,

se conformar,

se reformar,

se deformar,

se transformar.

E assim,

dilatar em infinitas possibilidades,

o parco, rígido e consistente aparecer do real.


Mas podemos inferir que temos

aí um trauma da perda desse movimento

e presenças carnais que,

no cristal liquido, se esvai.


Mas será que se perde algo mesmo?


Será que o sentido expresso das palavras

não são suficientes para trazer toda

humanidade, toda carnicidade e gestual

que o poema genealogicamente trás

em seu corpo lingüístico?


Creio talvez que sim.

Talvez seja essa uma pseudoquestão,

um mero e infantil capricho de um poeta

- já um tanto anacrônico -

que vê humanidade demais em tudo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Angústia, Desespero e Desamparo no Existencialismo de Sartre

No ensaio “O Existencialismo é um Humanismo ” o filósofo Jean-Paul Sartre busca esclarecer e  fazer uma defesa - enfatizando seus principais pressupostos - de sua proposta existencialista exposta na obra “ O Ser e o Nada ”, que foi duramente atacada tanto pela ortodoxia cristã, como pelo fundamentalismo ateu-marxista. Os cristãos o acusam de - ao negar a essência divina como fundante do humano – promover uma visão gratuita, sórdida e angustiada da vida, esquecendo das belezas do viver, ou, em suas palavras, abandonando “o sorriso da criança”. Já os marxistas indicam que Sartre propõe uma espécie de “imobilismo do desespero” , onde o fechamento das possibilidades da ação solidária consolidaria uma filosofia de caráter contemplativo, de fundo burguês. Os dois lados, segundo Sartre, partilham da certeza de que o Existencialismo, por ter sido gerado tendo como base o subjetivismo Cartesiano, promove o isolacionismo humano, se configurando então como uma doutrina sem ética e que p...

O conceito de "aura" em Walter Benjamim

Nos escritos de  “ Pequena História da Fotografia” e “ A obra de Arte na era de sua reprodutibilidade técnica ” Walter Benjamim define que a dimensão “ aurática” de um objeto seria reconhecida pela singularidade de sua aparição, isto é, pelo seu caráter único, perpassado por determinações relativas ao espaço e a temporalidade em que está inserido. Independente da proximidade física com o objeto ou obra de arte, teria-se uma espécie de distância ontológica conceitual determinada por uma propriedade de culto e magia na qual estaria envolto.  Para Benjamim o fenômeno da aura estaria primordialmente ligado ao caráter de unicidade e autenticidade da obra. Fazendo o que poderíamos chamar de uma “ genealogia da aura ”, Benjamim constata que existe um momento primeiro que estabelece o surgimento da aura no contexto cultural da humanidade: ela seria contemporânea da utilização da obra de arte nos rituais religiosos.  Temos nessa dimensão que o objeto ou obra utiliz...

Modelo de carta de renúncia para pessoas dignas

Senhores Diretores, A título de introdução peço licença para expor algumas considerações, como tentativa de possibilitar alguma reflexão e entendimento. Quando se reúne em torno de desejos e ideias, instituindo-se um grupo, está se configurando um “encontro”. Todo encontro pressupõe uma ética, ou seja, um reconhecer e dar dignidade ao “outro” que se configura – no meu modo de ver - de três formas: interesse, escuta e cuidado. Toda ética exige para sua fundamentação, uma compreensão prévia para que se possa instituir uma práxis voltada para o bem comum, ou seja, para dignificação do homem naquilo que reflete mais radicalmente o que chamamos de humanidade, que se constitui a partir das suas possibilidades de escolha e significação de mundo. Daí temos “inclusão” não como dádiva, esmola, doação ou caridade, mas como abertura de possibilidade da liberdade humana, do cidadão autonomamente poder determinar - na diversidade que o constitui culturalmente – suas escolhas com condições dignas ...